Intestino- o segundo cérebro

Diante de uma situação de estresse intenso é comum você sentir um mal-estar intenso que muitas vezes acaba no banheiro? E depois de dias de intestino preso, fica difícil manter o bom humor?

 

Essas são algumas provas de que a função intestinal pode interferir no humor e vice e versa.  Provas da intima relação entre o cérebro, o intestino e o seu comportamento.

 

A ligação nervosa entre o intestino e o cérebro é feita pelo nervo vago, que funciona como uma via de mão dupla: tanto são enviados estímulos do cérebro para o intestino quanto recebidos. Esse nervo também é essencial para o bom funcionamento de outros órgãos vitais como pulmão, coração e estômago.

Pesquisas recentes comprovaram que a relação entre intestino e cérebro é muito mais ampla do que apenas envio e recebimento de comandos e informações pelo nervo vago. Comprovam também que alterações no funcionamento intestinal podem causar,  além de alterações no humor e no comportamento, o desenvolvimento de doenças e transtornos mentais.

 

Entender como todo esse sistema interage vem se apresentando como uma das novas fronteiras da medicina abrindo possibilidades para o tratamento para algumas doenças e transtornos mentais.

 

 Os seres que nos habitam- microbiota

 

Você certamente já ouviu falar que dentro de nosso intestino vivem diversas bactérias. Os números são impressionantes.

Segundo uma pesquisa realizada em 2016 pelo Weizmann Institute of Science, de Israel, um homem de 1,70 m e 70 kg possui aproximadamente 39 trilhões delas. Esse número fica ainda mais arrebatador quando comparado ao número de células humanas desse indivíduo: cerca de 30 trilhões.

Ou seja, o nosso corpo contém mais células não humanas do que humanas. O conjunto dessas bactérias é denominado pela ciência de microbiota.

Infografico cerebro e intestino

A grande maioria dessas bactérias vivem no intestino e são essenciais para a nossa saúde. Enquanto ajudam na digestão dos alimentos que consumimos as bactérias retiram deles a energia que elas precisam para viver, criando um contexto de ganha – ganha. Algumas vezes, todavia, ocorre a multiplicação de bactérias nocivas que terminam causando doenças.

 

As novas pesquisas sobre relação cérebro intestino apontam que, além das funções digestivas e a possibilidade de causar doenças, as alterações na microbiota pode alterar comportamentos, humor e desencadearem ou atenuarem os sintomas de transtornos psíquicos.

 

Testes realizados em ratos pela Universidade de Cork, na Irlanda, em 2011, comprovaram que camundongos alimentados com iogurte com alta concentração da bactéria Lactobacillus rhamnosus, apresentaram mais disposição para nadar e atravessar labirintos. Os ratinhos que não receberam a alimentação enriquecida, desistiam de nadar na metade do tempo dos camundongos turbinados por bactérias em seus intestinos.

Esse comportamento foi apontado pelos pesquisadores como similar aos causados por uso de antidepressivos nos roedores.

Além de ficarem mais ativos e dispostos, os ratos que receberam a mistura de iogurte com Lactobacillus rhamnosus apresentaram diminuição significativa de liberação de hormônios associados ao stress na corrente sanguínea, apresentando, por consequência, um comportamento mais relaxado do que os que não receberam a alimentação sem os Lactobacillus.

Essas conclusões foram comprovadas também em humanos, em uma pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia como parte do projeto Microbioma Humano.  30 mulheres foram divididas em dois grupos: para o primeiro foi fornecido doses de iogurtes turbinados com as bactérias bifidobacterium, streptococcus, lactococcuse lactobacillus. O outro grupo recebeu iogurte sem adição das bactérias. Segundo exames de ressonância magnética, realizados depois de 12 meses, as voluntárias que consumiram as bactérias tiveram alterações na estrutura cerebral.

O que tudo indica, a introdução das bactérias na dieta foi responsável por uma série de alterações nas regiões cerebrais que processam sensações como fome, dor e sensação de relaxamento.

 

O rei na barriga

 

Além das bactérias o intestino abriga cerca de 500 milhões de neurônios. Isso mesmo! É o órgão, depois do cérebro, com a maior presença de células nervosas. Devido aos neurônios intestinais os movimentos e a liberação de enzimas que tornam possível à digestão ocorre de forma autônoma, sem necessidade de recrutamento do cérebro.

 

Além de coordenar essas atividades os neurônios do intestino produzem cerca de 90% da serotonina liberada no organismo, molécula responsável pelo bem estar, e, 50% da dopamina, conhecida como o neurotransmissor do prazer.

 

Transtornos mentais e funcionamento intestinal

 

O funcionamento intestinal e alterações na microbiota interferem na predisposição ao desenvolvimento de doenças e transtornos psiquiátricos. “Já existem pesquisas que comprovaram que, tanto em animais quanto em humanos. existe uma ligação entre o consumo de probióticos e a função cognitiva”. Afirma Lucas Benevides.

A mais recente, publicada em novembro de 2016 na revista científica Frontiers in Aging Neuroscience, encontrou relação entre o consumo de leite probiótico enriquecido com  Lactobacillus acidophilus, Lactobacillus casei, Bifidobacterium bifidum e Lactobacillus fermentum e a melhora significativa no escore do MEEM , um teste que avalia o estado mental do paciente.

Segundo a pesquisa, o uso de probioticos por 12 semanas afetou positivamente a função cognitiva e alguns estados metabólicos em pacientes com doença de Alzheimer.

Há indícios iniciais, segundo outras pesquisas realizadas em animais, que mais doenças e transtornos podem estar associadas a flora bacteriana intestinal – como o Parkinson, depressão e transtornos de aspecto autista.

 

Se realmente for comprovado os benefícios da formação e estabelecimento de uma flora intestinal adequada, parece ser possível, pelo menos em tese, a introdução de uma flora bacteriana intencional, por meio de uma alimentação adequada,  para obter ganhos cerebrais, alterar comportamentos não desejáveis e até tratar transtornos. “Apesar de ainda ser uma investigação muito recente é com certeza muito promissora.”Conclui Benevides.

Quem sabe no futuro próximo será possível tratar depressão ou evitar sintomas do Alzheimer com um iogurte ou pílulas de bactérias? Apesar de muito recente essas possibilidades abrem novas perspectivas baseada mais no estilo de vida do que no uso de medicamentos.

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